Dador vivo é uma das metas para transplantes hepáticos

Gala Homenagens e emoções dominaram a cerimónia que reuniu, no Hospital Pediátrico, dezenas de crianças e jovens tratadas por Linhares Furtado e o seu filho Emanuel Furtado.

Uma criança em lista de espera e um conjunto de desafios para o futuro. No momento em que se celebram os 20 anos de transplantes hepáticos pediátricos, realizar a intervenção com dador vivo faz parte da lista de metas da unidade, liderada por Emanuel Furtado.
O pioneiro, Linhares Furtado, em tempos, chegou a fazê-lo e, por isso, não esconde a satisfação por sentir que «há vontade de ensaiar este tipo de intervenção raro e especial», em condições «técnicas e éticas sem comparação» das que o país dispunha há anos atrás.
Numa gala, essencialmente, de emoções, que reuniu, no Hospital Pediátrico do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), dezenas de crianças e jovens que passaram por um transplante de fígado, a suspensão do programa, num passado recente, foi um dos assuntos que dominou os discursos.
O ministro da Saúde lembrou «o papel fundamental» de Coimbra na história da transplantação em Portugal e define as duas décadas como «um marco importante». A Linhares Furtado coloca-o no topo das referências e Emanuel Furtado vai pelo mesmo caminho. Aliás, quando debatiam as condições para organizar a Unidade de Transplantação Hepática para Adultos e Crianças do CHUC, Paulo Macedo lembra que perguntou ao cirurgião quais os «incentivos» que pretendia e teve como resposta uma outra questão. Emanuel Furtado «só» queria saber quem iria constituir a equipa. “Sinto que fraquejei”
Avesso a discursos, o coordenador do programa – que, recorde-se, acolhe todas as crianças que necessitam de transplante hepático no país – agradeceu àqueles que lhe deram «uma segunda oportunidade». «Eu sinto que fraquejei, porque achei que não tinha condições para exercer com qualidade», confessou, realçando nomes, como o de Isabel Gonçalves, que, ao contrário, sempre acreditaram que era possível.
A pediatra não esquece que o programa – suspenso entre Junho de 2011 e Março de 2012- teve «uma adolescência turbulenta», no entanto, atingiu «a maturidade», embora continue a existir «muito para fazer».
Ana Maria Calvão da Silva, coordenadora do Centro de Colheitas e Transplantação da Região Centro, também lembrou que «nem todas das etapas foram felizes», falando mesmo em «desperdícios» que obrigaram as crianças a ser transportadas para o Hospital de La Paz, em Madrid.
José Martins Nunes, presidente do Conselho de Administração do CHUC, destaca a «esperança no futuro», numa altura em que a equipa de Emanuel Furtado ajuda também crianças que chegam de África, nomeadamente de Cabo Verde. Mas, do passado recente, não esquece a visita que realizou a Espanha, que lhe reforçou a vontade «de tentar renascer» o programa.
«Festejar a vida e homenagear os profissionais de saúde».
Eram estes os objectivos da gala organizada pela Hepaturix – Associação Nacional das Crianças e Jovens Transplantados ou com Doenças Hepáticas, referiu a presidente Tereza Larisch. Na assistência às famílias, juntou-se também Maria Cavaco Silva.

Transplantes aumentaram em 2013 – Após um período de algum retrocesso, 2013 revelou-se o ano em que os transplantes de órgãos voltaram a aumentar em Portugal, numa tendência que, na perspectiva de Paulo Macedo, é para continuar, porque existe hoje, mais legislação, nomeadamente, para a colheita de dador vivo. O ano passado foram transplantadas mais de 700 pessoas, sendo que os transplantes por dador vivo também subiram, em relação a 2012, passando de 47 para 51, frisou o ministro.

A prova de que “nem todos os anjos têm asas”

VIDA Ana Rita Mendes, Carolina Varejão, Eugénia Deus, Flora Carneiro, Harold Vieira, David Almeida, Joana Oliveira, Tiago Teotónio. Oito nomes, oito vidas salvas pela transplantação hepática. São 20 anos e quase 200 transplantes realizados em crianças e, hoje, muitos deles já adultos, como o Paulo, afirmam que «nem todos os anjos têm asas».
Para Flora Carneiro, o dador é mesmo o seu «anjo da guarda» e quase não há palavras para agradecer à equipa médica que devolveu a felicidade a dezenas de famílias.
«Obrigado por me deixarem viver assim…feliz». O agradecimento é de Tiago Teotónio, mas podia ter sido verbalizado por tantos outros meninos e meninas, mas também pelos pais que agradecem a oportunidade de voltar a ver «o sorriso» dos filhos.
Numa gala que foi também um reencontro com os amigos – entre eles os médicos e enfermeiros – que se fizeram no hospital, o pioneiro Linhares Furtado levou para casa uma recordação que não deixa margem para dúvidas de que tudo valeu a pena: a fotografia de uma mãe – transplantada há anos atrás -, com o seu bebé, «nascido de parto natural», frisou, com emoção. P.I.S.

Patrícia Isabel Silva, Diário de Coimbra